Tiago 2.1 | A fé e a acepção de pessoas

“Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da Glória, em acepção de pessoas.” (Tg 2.1;) 

Essa carta de Tiago – dirigente de uma sinagoga messiânica em Jerusalém, irmão de Jesus – foi dirigida “às doze tribos que andam dispersas”. (Tg 1.1) Essas doze tribos eram formadas por judeus crentes em Yeshua, assim como Tiago, vivendo na Diáspora; ou seja, vivendo fora do território original dos hebreus. 

‘Possivelmente Ya’akov [Tiago] estava se dirigindo aos judeus messiânicos que o conheciam pessoalmente em Jerusalém, mas que fugiram da perseguição de Paulo (At 81-3) ou na fuga posterior descrita em At 12 (44 da E.C). No entanto é mais provável que esses fossem judeus já vivendo na Diáspora quando vieram a crer, a quem as palavras de Ya’akov demonstraram sua autoridade como irmão do Senhor e líder da comunidade em Jerusalém. (STERN, 2008, p.789)

  A questão iniciada no capítulo 2 referia-se ao “fazer acepção de pessoas”; ou, em outras traduções, aos “favoritismos”. A continuação do texto apontava as razões das advertências: os pobres estavam sendo mal recebidos nas sinagogas [termo utilizado no texto original e traduzido como igrejas] por alguns cristãos [judeus convertidos a Yeshua]. O contexto social da época era de invisibilidade dos socialmente desfavorecidos. Os homens e mulheres pobres que se convertiam, ao que indica essa carta, estavam sofrendo discriminação. Havia privilégios para a camada social possuidora de bens, ação absolutamente contraditória aos ensinamentos de Jesus.

  Lendo o capítulo 15 de Atos, vamos encontrar uma outra discussão acontecendo em Jerusalém, a respeito da discriminação aos gentios que abraçavam a fé e não se circuncidavam. Ao ponto de Barnabé e Paulo viajarem até Jerusalém a fim de ensinarem o que a fé cristã determinava. Paulo testemunhou como Deus estava operando grandes sinais entre os gentios (lembrando que “gentios” era a forma como os não-judeus eram chamados). E Pedro também testemunhou o que aprendera sobre o Espírito Santo ter sido derramado tanto aos judeus como aos gentios.

  Tanto os gentios quanto os judeus convertidos cobravam de Paulo práticas ritualísticas judaicas que os distinguissem. Na visão de mundo pagã, as regras ascéticas, projetavam alguma visibilidade (BROWN, 1990, pp.48-50). O mundo da época se importava com a opinião pública, com o prestígio e com o pertencimento à “casta” superior. E para alguns judeus convertidos os costumes e a cultura estavam muito enraizados. Gálatas 2 informa que o apóstolo Pedro relutou com Paulo quanto ao tratamento dado aos gentios.

  No judaísmo tanto a alma quanto o corpo eram inferiores a Deus e sujeitos à “rebeldia”. O coração (alma) do judeu deveria ser reto, sem fermento (falsidade, hipocrisia), justo, bondoso, inclinado e obediente a Deus, fiel etc. “Deveria ser” aqui implicava em poder não ser; e o judeu possuía um inter-relacionamento interno, um “coração dentro do coração” (BROWN, 1990, pp. 39- 41) . No livro dos Salmos há diálogos do rei Davi com sua alma: “porque estás abatida, ó minha alma? Porque te perturbas em mim?”.  (Salmos 42.5) 

  No paganismo a mentalidade era dual, havia a supremacia da alma sobre o corpo assim como dos “bem-nascidos” sobre os “inferiores” (esposas, escravos e plebeus).  (BROWN, 1990, p. 39) O platonismo defendeu uma alma racional eterna e incriada. O mundo cristão por séculos esteve em debates sobre o significado da alma e do corpo, misturando diferentes tradições (ora judaica, ora pagã); reflexo evidente das culturas nas quais o cristianismo teve origem.

  O mesmo capítulo 15 de Atos informou sobre os ensinos de Tiago acerca dessa exclusão de determinados grupos de convertidos, porque Deus fez de judeus e gentios um único povo. Cabe ressaltar, essa posição é valida para a igreja atual, formada majoritariamente por gentios. O texto deixa claro o quanto os judeus no primeiro século não estavam rejeitando, todos eles, a Palavra. Muitos judeus se converteram. Não podemos generalizar e afirmar que os judeus rejeitaram todos a Jesus. Não podemos assumir uma postura preconceituosa contra ninguém que aceite a Jesus, segundo essa instrução do irmão de Jesus.

  No capítulo 2 da carta de Tiago, o problema não era a circuncisão, era o dinheiro. A mentalidade da época precisava ser regenerada pela lavagem da Palavra. A cultura fora impregnada por mentiras e o Espírito Santo estava usando a Tiago para corrigi-la. A mensagem da Cruz quebrava essas visões de mundo, ela era diferente. Não era possível receber um Espírito de Amor, Puro e Santo, vindo de Deus, e permanecer com um amor parcial. Deus amou o mundo de tal maneira, que enviou Seu Filho, e esse mundo tem muitas nações e povos e línguas e camadas sociais. Não há como aceitar ao Evangelho da Cruz e permanecer escolhendo a quem amar.

  Todos deveriam ter a mesma honra uns perante os outros. Gálatas 3.28 expressou claramente: 

“Porque todos são filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus; porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo. Nisso não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.”

    Não há espaço para racismo, para preconceito social entre ricos e pobres. Todas as concepções da época, definindo alguns como superiores a outros, deveriam ser abolidas à Luz da Verdade. 

  Para a historiadora Aline Rousselle (s/d, 352, 357, 367-374), a Antiguidade definiu para as mulheres o destino da reprodução. Sua tese sobre a procriação e a continência em Roma nos permitiu conhecer alguns momentos em que a vida feminina também esteve ligada ao prazer sexual dos homens, papel desempenhado por concubinas ou escravas. Os estamentos definiriam quais mulheres seriam bens semoventes (juridicamente comparadas às porcas vendidas em comércio), e quais seriam esposas honradas (proprietárias de escravos e superiores às demais mulheres). Ou seja, a mulher poderia ser dona de um homem, tudo dependeria se ela nasceu rica ou pobre. E para a mulher ser distinta das demais, necessitaria usar vestimentas adequadas, seria cobrada a ser comedida sexualmente (após gerar os filhos suficientes) e a usar o véu (cujo uso era regulado por lei). O aspecto das leis de uso do véu em Roma elucidou o contexto dos conselhos paulinos para que as mulheres de honra tivessem a prudência de usar o véu nos padrões da época.

  Na igreja cristã não deveria ser assim. Se uma mulher escravizada e gentia aceitava a Jesus, ela deveria ser tratada de forma equivalente ao tratamento dispensado aos homens ricos e judeus; ou seja, como amor e dignidade. Pois o Espírito Santo estava presente naquela vida. Deus veio ao mundo e se fez carne por todos os habitantes da terra. Ele não planejava grupos privilegiados para a salvação.

  Os dois vídeos sugeridos no final deste post trouxeram uma reflexão mais pormenorizada e explicada.

Fontes citadas:

BROWN, Peter. De Paulo a Antônio. Em: Corpo e sociedade: o homem, a mulher e a renúncia sexual no início do cristianismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990, pp. 15-180.

ROUSSELLE, Aline. A política dos corpos. Em: História das mulheres: a Antiguidade. Porto: Afrontamento, [s/d], pp. 352-402.

STERN, David H. Comentário Judaico do Novo Testamento. São Paulo: Didática Paulista; Belo Horizonte: Editora Atos, 2008.

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